Pai das Olimpíadas da Agricultura disputadas em Portugal é luxemburguês

Pai das Olimpíadas da Agricultura disputadas em Portugal é luxemburguês

Paula TELO ALVES
Paula TELO ALVES
Em vez de atletismo, há corrida de tratores; em vez de ginástica, ordenham-se vacas. São os Agrolympics, as olimpíadas da agricultura, que reúnem jovens agricultores de toda a Europa e que este ano decorreram em Portugal. O inventor é luxemburguês e foi homenageado em Vila do Conde.

“Plus vite, plus vite, allez, allez, allez!”. Quatro jovens suíços vestidos de jardineiras ordenham uma vaca mecânica como se não houvesse amanhã. O balde vai-se enchendo à medida que os segundos passam, enquanto o chefe de equipa grita palavras de encorajamento, debaixo do olhar benevolente do júri. “Vamos, vamos, mais depressa, mais depressa!”. O esforço acaba por compensar: a Suíça consegue encher o balde de leite e há-de acabar em terceiro lugar nesta edição do Agrolympics, que decorreu há poucos dias em Vila do Conde. Entre as provas há gincana de tratores, empilhamento de fardos de palha, rachar lenha, trocar o pneu de um trator, calcular as sementes necessárias para plantar num metro quadrado de terra ou montar as peças de um sistema de irrigação automático.

Durante três dias, equipas de 19 países europeus disputaram os jogos olímpicos da agricultura, que vão já na terceira edição. O criador é um luxemburguês e chama-se Georges Krack. O engenheiro agrónomo, que se reformou há um ano, trabalhou a vida inteira como professor no Liceu Técnico Agrícola de Ettelbruck, e faz jus à reputação de europeístas dos luxemburgueses. Foi um dos fundadores do Carrefour, um agrupamento de escolas de seis países que daria mais tarde origem à Europea, a associação que agrupa os liceus agrícolas da Europa e que organiza os Agrolympics. E foi dele que veio a ideia de organizar um concurso que promovesse o convívio entre profissionais europeus. “Já tínhamos tido outros concursos na Europea, como de vinicultura, mas faltava um concurso para jovens agricultores. Tive esta ideia durante dez anos na cabeça, mas tive de esperar pela presidência luxemburguesa [da UE], em 2015, para poder concretizá-la e realizar o meu sonho. E o meu bebé nasceu”, conta ao Contacto, enquanto bebe uma cerveja no local onde decorrem os jogos que criou.

Nessa primeira edição, que se realizou no Luxemburgo, estava o representante português na Europea, João Gonçalves, diretor da Epamac, uma escola agrícola em Marco de Canaveses. “Fiquei encantado com aquilo. Trouxe a ideia para cá e em 2016 fizemos uma primeira edição nacional. Agora conseguimos trazer a terceira edição para Portugal, e ainda por cima está cá a equipa luxemburguesa e o Georges. Lembrei-me que era bom fazer-lhe uma pequena homenagem, porque os professores em geral são pouco reconhecidos, e toda esta gente que está no ensino agrícola, então, muito menos”, explica. A surpresa comoveu Georges Krack. No dia da abertura dos jogos, foi descerrada uma placa em metal que diz: “Homenagem ao criador dos Agrolympics, Georges Krack”. “Vieram-me as lágrimas aos olhos”, conta este luxemburguês bonacheirão. “Diz-se que santos da casa não fazem milagres, que ninguém é profeta na sua própria terra. No Luxemburgo, no meu antigo liceu, não há nenhuma placa e nunca haverá. Mas eu tirei uma foto e enviei-a à direção ao liceu”, brinca, fazendo rir as muitas pessoas que o rodeiam.

O professor reformado luxemburguês foi surpreendido com uma homenagem em Vila do Conde.
O professor reformado luxemburguês foi surpreendido com uma homenagem em Vila do Conde.

Se houvesse um campeonato dos luxemburgueses mais extrovertidos, Georges Krack levava certamente a palma, ex aequo com Jean-Claude Juncker, com quem rivaliza em popularidade, pelo menos no Agrolympics. Enquanto o Contacto o entrevista, o luxemburguês não pára de ser chamado por portugueses que o conhecem de visitas anteriores. “Georges, Georges!”. Trazem-lhe garrafas de espumante Marquês de Marialva, com pedidos de desculpa por interromper a entrevista: “Desculpe, mas temos de beber à saúde do Georges, é um grande amigo meu”, diz um português. O dono de um restaurante em Penafiel vem cumprimentar o luxemburguês. “Tenho fotografias dele no meu restaurante, de quando ele cá esteve no ano passado”. Claramente, o luxemburguês tem aquilo a que se convencionou chamar carisma, e não passa despercebido em lado nenhum. Quando é chamado ao palco para o encerramento dos jogos, enquanto se aguarda a chegada de um secretário de Estado para entregar os prémios, Georges Krack senta-se numa bateria deixada por uma banda que esteve antes em palco e finge que toca, para gáudio da equipa luxemburguesa que assiste da bancada. “O Georges está noutro campeonato”, garante Alex Mesenburg, professor do Liceu Técnico Agrícola de Ettelbruck e chefe da equipa do Luxemburgo.

“Bauer, com muito orgulho”

“Bauer” (camponês) é um termo pejorativo no Luxemburgo, usado para insultar os luxemburgueses, mas Georges Krack assume-o com orgulho. “Uma vez ’bauer’, sempre ’bauer’”. Garante que tem antepassados agricultores dos dois lados da família e está feliz por acompanhar a equipa do Grão-Ducado, com alunos que conhece bem. “Um professor numa escola, no primeiro dia de aulas, pergunta: ’Quem és tu, como te chamas?’ Mas na escola agrícola perguntamos: ’De que aldeia vens?’. ’Ah, és o filho de não sei quem, a empresa agrícola que tem porcos.’ Há uma quinta por trás de cada nome, em vez de um nome e apelido’”, explica.No Luxemburgo, a maioria dos jovens que escolhem o liceu técnico agrícola de Ettelbruck, a única escola do género no país, são filhos de proprietários rurais. “Quem é que tem dinheiro para comprar uma quinta que custa cinco milhões de euros?”, pergunta Alex Mesenburg, responsável da equipa de “atletas” luxemburgueses.

Frank Wanderscheid, de 19 anos, é a exceção que confirma a regra. Não tem agricultores na família mas adora a profissão, que nos últimos anos se tornou altamente especializada. Frank está a estudar para ser pedicure bovino. “É importante manter os cascos das vacas, porque antigamente gastavam-se nas pedras dos caminhos, e agora não. Uma vaca com cascos bem tratados está melhor e produz mais leite”. Mas se no Grão-Ducado a profissão de agricultor atrai sobretudo os filhos de proprietários rurais, em Portugal não é assim. Os alunos que chegam à escola agrícola do Marco de Canaveses podem até vir do meio rural, mas os pais, “mesmo que tenham um pequeno terreno, não passa de uma propriedade pequenina com umas couves e umas batatinhas, não estamos a falar de proprietários rurais da dimensão do Alentejo”, explica o diretor da escola portuguesa. Em contrapartida, “as hipóteses de saídas profissionais deste alunos são muito grandes”, assegura. “O problema que temos neste momento é que não temos alunos suficientes para o que o mercado de trabalho nos pede”.

Portugal campeão da lavoura

No campo onde se disputam as olimpíadas da agricultura, no enorme espaço da Agros em Vila do Conde, as provas prosseguem. Portugal vai em primeiro, com muitas críticas dos restantes concorrentes. “Eles acusam-nos de a gente facilitar a vida a Portugal, mas não é verdade”, conta Nuno Matos, um dos membros do júri que fiscaliza as provas. “Eles [os portugueses] ontem no trator iam tão depressa que eu até lhes disse: ’Ó rapazes, andai mais devagar, que vós ides virar o trator!”.

A sorte não foi tão generosa com o Luxemburgo. Ao contrário dos suíços, a prova da ordenha correu mal aos luxemburgueses. Frank, o futuro pedicure bovino, habituado a lidar com 40 a 50 vacas por dia, lamenta que os organizadores não tenham usado “uma vaca a sério”, o que teria evitado o desaire luxemburguês. Em vez disso, a vaca era feita de madeira, com úberes em plástico. O que aconteceu foi o seguinte: o balde ia quase cheio, mas com o tempo a acabar, os alunos entusiasmaram-se. “Faltavam três segundos para terminar e eles arrancaram as tetas à vaca”, conta Alex Mesenburg, o chefe da equipa. O Luxemburgo foi desqualificado na prova, o que não ajudou no resultado final.

O Grão-Ducado acabaria por ficar em 11° entre os 19 países concorrentes. Mas o responsável da equipa aceita o mau resultado de forma filosófica. “Fomos muito bons no campeonato do levantamento do copo. Assim que chegámos aprendemos logo o caminho para o stand da Super Bock, o stand número 16”, brinca. “E os miúdos gostaram, querem todos ficar em Portugal e casar com uma portuguesa”.

Portugal sagrou-se campeão olímpico, seguido da Sérvia e da Suíça, mas o importante, garantem os derrotados, é mesmo o convívio. “Os alunos, quando acabarem o liceu, vão trabalhar cada um para a sua quinta, em trabalhos muito duros, e não vão ter muito tempo para viajar e conhecer outras pessoas do ramo”, aponta Alex.

Os jogos criados por Georges Krack também contribuem para revalorizar uma profissão que perdeu estatuto nos últimos anos e que tem dificuldades para atrair mão-de-obra qualificada. “Há duas gerações, toda a gente no Luxemburgo era agricultor”, recorda Alex. “Toda a gente tinha duas vacas, um pedaço de vinha e uma horta para plantar batatas”. O professor e engenheiro agrónomo lamenta a desvalorização de um trabalho que considera essencial para a sobrevivência da espécie. “Para mim, há duas profissões essenciais, se tudo o resto acabar: agricultor e médico”.

Mas uma sondagem recente não deixa margem para dúvidas sobre a fraca atratividade da profissão: só 13% das pessoas encorajariam os filhos a trabalhar na agricultura. O próprio ministro da Agricultura do Luxemburgo admitiu que não é uma profissão em que gostasse de ver os filhos, numa entrevista em julho ao Contacto. “As pessoas têm consciência de que o trabalho na agricultura é importante. Sabem que é difícil, que implica muito trabalho, que não há muito tempo livre e é por isso que não incitam os filhos a seguir um percurso profissional nesta área”, justificou Fernand Etgen. Apesar disso, há resistentes que vão continuar a dedicar-se à profissão e a participar nos Agrolympics. Para o ano são na Polónia.

Paula Telo Alves